Cecília Jardim: bailarina do Apeú se torna embaixadora do Circuito Norte em Dança


⚪️ EM PAUTA | Guia de Castanhal

(Por Berna Lameira)

A arte produzida no interior da Amazônia acaba de ganhar mais um motivo de orgulho.

Aos 13 anos, a bailarina Cecília Jardim, nascida e criada no distrito do Apeú, em Castanhal, foi escolhida como embaixadora da 14ª edição do Circuito Norte em Dança — um dos maiores eventos de dança da região Norte do Brasil.

O Circuito Norte em Dança acontece em Belém, entre os dias 23 de setembro e 02 de outubro, reunindo bailarinos, companhias, estudantes e profissionais da dança de diversas partes do país. Neste ano, o evento celebra a força artística da Amazônia brasileira e terá Cecília como um dos rostos oficiais da edição.

Postagem oficial no Instagram do Circuito Norte em Dança

A relação da jovem bailarina com a dança começou cedo. Aos 3 anos de idade, Cecília entrou em uma escola que oferecia aulas de balé infantil. Foi ali que nasceu a paixão que transformaria sua vida.

Hoje, além do ballet clássico, ela também pratica jazz, contemporâneo, lírico e folclore. Para Cecília, a dança é muito mais que técnica ou palco.

“É a forma como eu transformo os sentimentos em movimento. Quando eu danço, consigo expressar coisas que não consigo expressar com as palavras.”, destaca Cecília.

Cecília começou aos 3 anos como bailarina. (Álbum de família)

Talento amazônico que rompe fronteiras

Segundo os pais de Cecília, Eliseu e Jamille, o momento no qual perceberam que a dança poderia ultrapassar o universo do hobby foi quando Cecília, aos 9 anos, encarou um dos maiores desafios da sua trajetória: viajar para Goiânia para participar do YAGP — Youth America Grand Prix — uma das mais importantes seletivas internacionais de ballet do mundo.

Mesmo muito jovem, ela subiu ao palco com a coreografia “Indauê, Tupã”, em uma apresentação que emocionou profundamente os pais.

Eliseu, pai de Cecília: presença constante na trajetória da artista

A escolha como embaixadora do Circuito Norte em Dança também carrega um significado simbólico forte. Diferente de um convite tradicional, a posição é destinada a bailarinos que se destacam artisticamente na região amazônica, reconhecidos por mérito técnico, dedicação e performances marcantes.

Para a família, a conquista representa resistência e pertencimento.

“Ter um corpo amazônico, uma bailarina de um município que não tem tradição no ballet clássico, sem teatro e sem incentivo estrutural, e ainda assim chegar ao posto de embaixadora do maior palco de dança da região Norte é uma vitória gigantesca”, destacam os pais.

Jamille, mãe de Ceci, doação em todas as fases da bailarina

Arte como força de transformação

Com ancestralidade afro-indígena, Cecília carrega nas performances referências da cultura amazônica, transformando identidade e território em expressão artística.
A rotina da bailarina envolve estudos, ensaios, apresentações e viagens, sempre conciliados com a vida escolar e momentos ao lado das amigas e da família. O apoio familiar, inclusive, é peça central nessa caminhada.

Cecília leva as suas performances referências da cultura amazônica

Os pais revelam que os desafios financeiros ainda são grandes. Cecília já conquistou oportunidades de intercâmbio na Europa e no Uruguai, mas nem sempre a família consegue arcar com os custos das viagens.

Mesmo diante das dificuldades, desistir nunca foi a palavra final.

“Ela sempre dizia que, dançando, conseguia se sentir bem no mundo. Então nós entendemos que valia a pena continuar lutando ao lado dela”, contam os pais.

Cecília é inspiração para outras crianças (Foto: Mosaico do Pará)

Sonhos que seguem dançando

Entre os maiores sonhos da jovem bailarina estão concluir sua formação pelo método Vaganova, evoluir artisticamente e continuar vivendo experiências inesquecíveis nos palcos.

E para outras crianças da Amazônia que também sonham em dançar, Cecília deixa um recado inspirador:

“Nunca desistam dos seus sonhos, mesmo quando for difícil. Ser da Amazônia é motivo de orgulho e nossos corpos amazônicos merecem ganhar o mundo.”